8# ARTES E ESPETCULOS 29.10.14

     8#1 MSICA  CLSSICOS PARA AS MASSAS
     8#2 LIVROS  HISTRIA DA VIDA INTERIOR
     8#3 CINEMA  TODAS AS COISAS DA VIDA
     8#4 VEJA RECOMENDA
     8#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  VIDA QUE SEGUE

8#1 MSICA  CLSSICOS PARA AS MASSAS
Quatro compositores surgidos no auge da era do rock'n'roll vm provando que a msica erudita pode se tornar um excelente produto de consumo popular.
SRGIO MARTINS

 preciso preparo intelectual e fsico para entrevistar David Lang. Intelectual, porque o americano de 57 anos, entre outros feitos, ganhou um Prmio Pulitzer por sua adaptao musical de A Menina dos Fsforos, conto infantil do dinamarqus Hans Christian Andersen, leciona msica na tradicional Universidade Yale e sua composio Man Made ganhou a concorridssima honraria de abrir a temporada 2015 da Filarmnica de Los Angeles. J quanto ao preparo fsico... Lang mora no 5 andar de um prdio sem elevador no Soho, em Nova York. "Moro no bairro desde antes de ele virar uma Disneylndia", diz o compositor (no sem antes reconfortar o esbaforido reprter com um copo d'gua e lhe dar alguns minutos para recobrar o flego), aludindo  transformao do local de vizinhana decadente em centro dos descolados nova-iorquinos. "Meu professor disse que aqui era lar de alguns dos meus compositores favoritos. Philip Glass e Steve Reich so praticamente meus vizinhos", relata. Para o pblico pouco afeito  sala de concertos, Lang  conhecido por ser o autor do tema de abertura de A Grande Beleza, do diretor italiano Paolo Sorrentino. Batizada de I Lie, a obra  interpretada por um coro infantil e se torna trilha do mal-estar sbito de um turista japons. Deu to certo que o americano j combinou uma colaborao no prximo filme de Sorrentino. "Um dos personagens ser um compositor erudito. Vou escrever os temas dele." 
     Lang e os outros trs autores presentes nesta reportagem (o ingls de origem alem Max Richter, o ingls Jonny Greenwood e o escocs James MacMillan) pertencem a uma faco pop do universo erudito. No que isso seja propriamente novidade: o italiano Luciano Berio (1925-2003) e o americano Leonard Bernstein (1918-1990) j arrastavam o p na cozinha popular, fazendo experimentos com o pop e o jazz. E muitas obras dos minimalistas Philip Glass e Steve Reich certamente no fariam feio num concerto de rock. Mas esses quatro, em especial, deram seus primeiros passos num perodo em que o rock era hegemnico  o que, de um modo ou de outro, afetou suas composies. "Minhas primeiras influncias foram Bach e Beatles", diz Richter, que estudou com Berio e se considera um sujeito de sorte por ter assistido aos shows do grupo punk ingls The Clash e do quarteto eletrnico alemo Kraftwerk. Como compositor, Richter funciona mais como um criador de timbres que como um escriba para orquestra. Por exemplo, em The Blue Notebooks, a obra que lhe rendeu notoriedade, ele cria climas no teclado para textos lidos pela atriz Tilda Swinton. Tal habilidade no passou despercebida aos produtores de cinema, que aproveitaram os temas desse lbum para trs produes (a mais famosa foi Ilha do Medo, de Martin Scorsese). Atualmente, Richter colabora com os temas de The Leftovers, srie da HBO. "So mais de dez horas de msica.  um esforo comparvel a correr uma maratona", resmunga. Em 2012, ele reescreveu As Quatro Estaes, do barroco italiano Vivaldi. Interpretada pelo violinista ingls Daniel Hope, sua verso passou longe da unanimidade. "No desrespeitei Vivaldi. Pelo contrrio: tirei-o do seu lugar-comum, que era tocar em elevadores", jacta-se. 
     Jonny Greenwood  outro rebento da gerao do rock. Guitarrista do quinteto britnico Radiohead, ele tambm envereda por trilhas sonoras, como as de Sangue Negro e O Mestre, ambas produes do cineasta Paul Thomas Anderson. Greenwood, no entanto, tem uma pena mais hbil que a de seu contemporneo Richter. F do polons Penderecki, com quem chegou a dividir um lbum, ele frequenta os palcos de concertos com a mesma desenvoltura que exibe nas apresentaes do Radiohead. Greenwood trabalhou como compositor residente da BBC Concert Orchestra e tem sido executado por orquestras profissionais (at no Brasil: na semana passada, a Orquestra Sinfnica Brasileira executou a sute de Norwegian Wood). Suas criaes trazem influncia da msica de Penderecki e de outros compositores do sculo XX, como Ligeti e Messiaen. 
     James MacMillan  o mais "rido" do quarteto. Embora tambm integre um grupo de msica folk, ele reserva para sua faco erudita obras impregnadas de religiosidade. Em The Confession of Isabel Goodie, sobre uma escocesa condenada  morte por bruxaria, a orquestra reproduz com rigor as sesses de tortura a que ela foi submetida. "No sou o nico compositor a expressar minha espiritualidade. Ela est presente em obras de Stravinsky e de diversos autores do sculo XX. Por exemplo, 4'33", de John Cage (em que o pianista no toca uma nota sequer e deixa o palco em absoluto silncio), pode ser entendida como uma orao, argumenta. Teve suas obras executadas pela Orquestra Sinfnica de So Paulo no ms passado. 
     A formao de novas plateias tambm faz parte da agenda desses compositores. Lang pertence ao coletivo Bang on a Can, que costuma promover rcitas e at operetas longe das habituais salas de concerto. Para Lang, existe uma necessidade de mudana. "Se algum compositor do sculo XVII viesse assistir s produes de hoje, pensaria tratar-se de  uma verso modernosa do que j se fazia 200 anos atrs", diz. Outra habilidade de Lang  como curador de espetculos do Carnegie Hall, tradicional casa de concertos de Nova York. Ali ele mistura, sem pudor algum, o virtuosismo do pianista e compositor Franz Liszt com o minimalismo de John Cage. Greenwood, por seu turno, prepara uma srie de programas de msica erudita em um canal na internet  a ordem  que o pblico jovem passe a conhecer a obra do barroco Henry Purcell to bem quanto o britpop do Osis. "s vezes, quando falo que trabalho com msica erudita, tenho a impresso de que as pessoas acham que moro numa ilha de difcil acesso", resigna-se Lang, cujos trs filhos adolescentes so mais enfronhados no mundo do hip-hop que na seara do pai. Mas no h razo para desespero. A obra desses quatro compositores mostra que o monstro da msica erudita  menos assustador do que parece. E pode at incentivar uma escalada ao ponto mais alto do Soho.

DAVID LANG, AMERICANO, 57 ANOS
Estilo: suas criaes so calcadas no formato clssico, mas agregam Jazz, msica folclrica e pop.
Para comear a ouvir: Death Speaks, que traz canes cujo narrador  a Morte (os textos, adaptados por Lang, vieram de canes do compositor austraco Franz Schubert). Entre os intrpretes esto Bryce Dessner, guitarrista do grupo de rock The National, e o compositor Nico Muhly ao piano.

JONNY GREENWOOD, INGLS, 43 ANOS
Estilo:  devoto do polons Krzysztof Penderecki, um adepto da escola atonal que depois foi repudiado por se bandear para obras mais, digamos, formais. Muitas das peas melanclicas de Greenwood - que  guitarrista do Radiohead - tm sido usadas na trilha sonora dos filmes de Paul Thomas Anderson, como Sangue Negro. 
Para comear a ouvir: Threnody for the Victims of Hiroshima / Popcorn Superhet Receiver/ Polymorphia / 48 Responses to Polymorphia, disco que traz peas de Penderecki  e as respostas de Greenwood s lies do mestre.

MAX RICHTER, ALEMO, 48 ANOS
Estio: ex-aluno do compositor vanguardista italiano Luciano Berio,  o mais pop do grupo. Seus discos tm msica eletrnica e at toques de punk.
Para comear a ouvir: The Blue Notebooks, que traz, sobre a msica, trechos de um dirio de Franz Kakfa E de poemas de Czeslaw Milosz lidos pela atriz Tilda Swinton.

JAMES MACMILLAN, ESCOCS, 55 ANOS
Estilo: catlico, faz uma msica profundamente influenciada por temas religiosos. Agrega folclore escocs e tambm elementos musicais do Oriente. 
Para comear a ouvir: The World's Ransoming & The Confession of Isobel Gowdie, ambas interpretadas pela Sinfnica de Londres e regidas por sir Colin Davis.


8#2 LIVROS  HISTRIA DA VIDA INTERIOR
Em Sinceridade e Autenticidade, Lionel Trilling, um dos crticos americanos mais influentes do sculo XX, investiga as mudanas da imaginao moral moderna.
EDUARDO WOLF

     H momentos na histria da humanidade nos quais a "vida moral" avalia a si mesma: a nfase em certas virtudes ou em certos vcios  alterada, por exemplo, ou novos elementos, antes ausentes, passam a fazer parte decisivamente de nossas consideraes morais. A tese resumida na frase anterior pode at no ser controversa, mas nada nela se assemelha ao que se entende predominantemente hoje por crtica literria e cultural. Essa constatao serve para medir um pouco da distncia que existe entre o soberbo trabalho intelectual realizado pelo crtico americano Lionel Trilling (1905-1975), autor da tese em questo, e a encruzilhada vivida por boa parte da atual crtica acadmica: irrelevncia ou doutrinao (frequentemente, ambas). 
     Com a publicao no Brasil de Sinceridade e Autenticidade  A Vida em Sociedade e a Afirmao do Eu (traduo de Hugo Langone;  Realizaes; 192 pginas; 39,90 reais), o leitor tem  disposio uma boa amostra da sensibilidade crtica e da imaginao moral que notabilizaram o autor no cenrio americano por dcadas. Para o pblico contemporneo, e no apenas no Brasil, o prestgio e a influncia de que desfrutou Trilling so quase inconcebveis para um crtico literrio. Professor na Universidade Columbia e um dos principais colaboradores da revista Partisan Review, Trilling foi das estrelas liberais (no sentido americano da palavra, que hoje se traduziria como "progressistas") anticomunistas de sua gerao. Sua obra como crtico, especialmente o clssico A Imaginao Liberal (1950),  fortemente marcada pelo exame das conexes entre literatura e sociedade a partir dessa perspectiva liberal mais larga. Os interesses do autor, entretanto, eram antes de tudo morais, e no doutrinrios e ideolgicos, o que talvez explique por que foi acusado, j nos anos 60, de ser um conservador e gradativamente esquecido nas universidades. 
     Sinceridade e Autenticidade teve origem nas conferncias de Trilling, em 1970, na prestigiada ctedra Charles Eliot Norton, da Universidade Harvard. A dimenso moral da obra  inequvoca. O autor prope a ideia de que o que hoje entendemos como "sinceridade" foi como que um acrscimo tardio  vida moral da cultura europeia. Na Antiguidade, no faria sentido perguntar-se pela sinceridade do heri Aquiles ou do rei dipo. A situao torna-se completamente distinta a partir, sobretudo, do sculo XVII, perodo em que os historiadores usualmente situam uma grande transformao na vida interior do homem europeu. Quando Shakespeare nos apresenta Polnio, em Hamlet, aconselhando o filho Larcio que fosse "a ti prprio fiel", pois ento "a ningum jamais poders ser falso", um novo mundo interior se descortinava, com nexos tremendos entre aquilo que ns mais verdadeiramente somos  quando fiis a ns prprios  e o mundo social que nos cerca. De Shakespeare a Freud, esse tema ganhar cada vez mais destaque; e Trilling mostra-se um extraordinrio guia desse ousado percurso. 
     Ao longo de sua anlise, acompanhamos a tenso entre uma sociedade que se autoexamina criticamente, cobrando coerncia entre os princpios por ela professados e suas prticas, e a ciso do homem que nela vive  um homem cuja conscincia  cada vez mais desintegrada, por mais que almeje ser fiel a seu "eu" verdadeiro, e que  levado  impostura da adoo de "papis sociais" (falsificando a imagem que terceiros fazem dele). Esse trao definidor da sociedade moderna serve de fio condutor para que Trilling explore, com rigor, elegncia e leveza, alguns dos principais marcos da literatura do perodo, dos primrdios da noo de sinceridade em Shakespeare  aguda conscincia dos papis sociais em Jane Austen ou Henry James. 
     Trilling tem a capacidade de compor quadros complexos, em que as conexes histricas, as categorias psicolgicas e as expresses literrias so aproximadas, alargando o horizonte de compreenso do leitor. O exame de tenses entre um "eu" autntico e as "mscaras sociais" no , para ele, uma mera empreitada acadmica. Antes, essas tenses interessam-lhe pessoalmente, pois expressam parte do seu prprio dilema: de um lado, o sentimento de priso  "mscara" do crtico e professor inabalvel que construiu ao longo de sua carreira; de outro, seu "eu" verdadeiro, que desejava a vida do gnio-criador (Trilling chegou a publicar um romance de relativo sucesso) sem nunca alcan-la. O crtico que conduz a investigao escreve com o estilo e a alma do artista  o que resulta em grande literatura, no apenas grande crtica. 


8#3 CINEMA  TODAS AS COISAS DA VIDA
Em Boyhood  Da Infncia  Juventude, o diretor Richard Linklater captura em tempo real as transformaes por que passa um menino, dos 6 aos 18 anos de idade.
ISABELA BOSCOV

     Em dias de filmagem  pouco mais de quarenta , a produo no difere de nenhuma outra de pequeno ou mdio porte. Na maneira como esses dias foram distribudos, porm, Boyhood  Da Infanda  Juventude (Boyhood, Estados Unidos, 2014), que estreia no pas nesta quinta-feira, no tem paralelo: durante doze anos, por trs, quatro ou cinco dias a cada ano, o diretor texano Richard Linklater reunia novamente seu elenco e filmava mais uma breve passagem na vida do garoto Mason Jr. Um dia junto do pai depois de uma longa ausncia, uma mudana de cidade em que os amigos ficam para trs, a constatao de que a me arrumou um pretendente, um corte de cabelo traumtico, um fim de semana com os pais da madrasta, uma briga com a namorada: acontecimentos to comuns, porm ssmicos na vida de Mason, se sucedem e se emendam uns nos outros, com comeos e fins nem sempre muito ntidos, como se fossem uma coleo de memrias do que ainda est por vir. To sereno, curioso e gentil  o filme que, enquanto ele vai transcorrendo, mal se percebe quo sublime e definitiva  a experincia de v-lo. 
     Escolhido na base do instinto e do pensamento positivo  de que todas aquelas qualidades que o diretor enxergou nele no teste floresceriam de fato no correr da dcada seguinte , Ellar Coltrane, que interpreta Mason, no estava sob nenhuma obrigao, contratual ou sequer de palavra, de retornar a cada nova temporada: Richard Linklater julgou que esse seria um compromisso desproporcional para uma pessoa to jovem, e que deveria partir do menino a vontade de prosseguir. Coltrane, felizmente, voltou todos os anos, assim como Patrcia Arquette e Ethan Hawke, que fazem seus pais, e Lorelei Linklater, filha do diretor, que vive a irm pouco mais velha e muito desenvolta de Mason. Acidentes, mudanas, desistncias, tudo poderia ter acontecido e matado no meio do caminho o pequeno mas imensamente arriscado projeto de Linklater. Tudo, entretanto, deu certo  e nada deu mais certo do que o prprio Coltrane, que, diante dos olhos do espectador, cresce e muda, perde-se e se encontra, tateia e se impe. Em 165 minutos, enfim, transmuta-se do menino sonhador e pensativo que foi aos 6 anos no rapaz intenso, perspicaz, maroto e ainda um bocado sonhador que aos 18 sai de casa para a faculdade. O que, no mundo, pode ser mais importante do que isto, a maneira como cada ser humano se torna o que ? Absolutamente nada,  o que argumenta Boyhood sem nem ter de oferecer argumentos alm de sua prpria existncia. 
     Ainda que indita e extraordinria, a ideia de Boyhood  de certa forma uma progresso natural para Linklater. A passagem do tempo, e as foras que ela exerce sobre os indivduos e os relacionamentos,  o cerne tambm da trilogia Antes do Amanhecer, Antes ao Pr-do-Sol e Antes da Meia-Noite, em que, entre 1995 e 2013, os personagens vividos por Julie Delpy e o mesmo Ethan Hawke se apaixonam, se afastam, se reencontram, se casam, se desentendem  e que talvez um dia ainda venha a ser uma quadri ou pentalogia, conforme diretor e atores sintam que tm, ou no, novos desenvolvimentos a investigar na trajetria de seus protagonistas. De outra parte, este tema em particular, o do que as pessoas se tornam  medida que avanam pela vida, vem sendo tratado desde 1964 pelo ingls Michael Apted em forma de documentrio, na srie Seven Up: a cada sete anos, Apted revisita o grupo de crianas que filmou pela primeira vez aos 7 anos, e que no ltimo episdio, de 2012, estavam j com 56 anos. No apanhado de Apted, porm, a amargura cada vez mais ganha terreno; para muitos dos personagens que o diretor acompanha, a vida trouxe um sem-nmero de decepes. Se comea onde tambm Seven Up comeava, pela idade embriagadora em que as crianas despertam para o mundo e ele se abre para elas, Boyhood, ao contrrio, escolhe terminar em um segundo momento de tremenda promessa: aquele em que, com o horizonte aberto diante de si, Mason de fato ingressa no mundo, caminhando sobre os prprios ps. J o espectador, esse provavelmente estar de joelhos a essa altura. 


8#4 VEJA RECOMENDA

EXPOSIO 
BLUMENFELD STUDIO (EM CARTAZ DE 29 DE OUTUBRO A 18 DE JANEIRO NO MUSEU DE ARTE BRASILEIRA - MAB-FAAP, EM SO PAULO)
 Quando perguntavam ao fotgrafo Erwin Blumenfeld (1897-1969) como ele conseguia deixar as mulheres to lindas, ele dizia que era muito fcil: "Para relaxar o rosto das modelos, eu sempre pergunto: 'Quer casar comigo?'". Nem tudo, porm, era assim to simples no trabalho desse alemo que pertenceu ao movimento dadasta, no fim da I Guerra, e depois se tornou um dos maiores nomes da fotografia de moda do sculo passado, nos Estados Unidos dos anos 50. A mostra  que j passou por Japo, Alemanha, Inglaterra, Frana e Itlia  rene mais de 150 imagens selecionadas pelos curadores Nadia Blumenfeld, neta do fotgrafo, e Danniel Rangel, entre fotos de moda, retratos, publicidade e experimentaes com luz, cor e solarizao, alm de pequenos filmes de influncia surrealista. Trata-se da intensa produo que ele realizou em seu estdio novaiorquino entre 1941 e 1960, quando colaborou com as revistas Harpers Bazaar, Vogue, Life e Cosmopolitan. Apesar do sucesso comercial, Blumenfeld costumava se definir como um rebelde que levava sua ousadia visual e artstica para veculos destinados ao grande pblico, como a propaganda e os editoriais de moda.

DISCO
SONGS OF INNOCENCE, U2 (UNIVERSAL)
 O U2  o tipo de banda que se recusa a ficar para trs. Surgido no turbilho ps-punk dos anos 80, o quarteto irlands j ganhou uma mo de verniz do produtor ingls Brian Eno (em The Unforgettable Fire, de 1984), revisitou as razes da cano americana nos lbuns The Joshua Tree (1987) e Rattle and Hum (1988) e, a partir de Achtung Baby (1991), fez troa do prprio messianismo enquanto iniciava uma caminhada rumo aos ritmos eletrnicos. Songs of Innocence  outro bom passo do U2 para acompanhar as revolues de seu tempo. Foi uma gestao complicada: o lbum demorou cinco anos para ser concludo e sua produo foi fatiada entre pelo menos trs colaboradores (incluindo Danger Mouse, do duo Gnarls Barkley, Paul Epworth, da cantora Adele, e Ryan Tedder, da banda One Republic). Musicalmente, o grupo olha para o passado, com rocks bsicos, tributos aos dolos punk Joey Ramone e Joe Strummer (de The Clash) e reminiscncias da adolescncia de Bono  a letra de Raised by Wolves fala de um atentado ocorrido em Dublin em 1974, enquanto Iris (Hold Me Close)  uma homenagem  me do vocalista.

LIVROS
O VENTRE DA BALEIA, DE JAVIER CERCAS (TRADUO DE SRGIO MOLINA; BIBLIOTECA AZUL; 396 PGINAS; 44,90 REAIS)
  uma espcie de minifrias para o professor de literatura Toms: sua mulher, Luisa, est em Amsterd para um congresso de histria, e ele decide comear seu cio no balco de um restaurante, com uma cerveja  sua frente. Depois, faz uma sesta, corta o cabelo e vai at o cinema assistir a Um Retrato de Mulher, de Fritz Lang. Ao sair, v Claudia. Saia curta, blusa azul e sandlias pretas, ela  toda a lembrana de uma paixo arrebatadora do passado que nunca foi correspondida. Os dois inevitavelmente se envolvem, e essa relao  o gatilho para uma srie de conflitos, como o futuro divrcio, os problemas na universidade e at a investigao sobre um possvel assassinato. Javier Cercas  um dos mais talentosos autores espanhis contemporneos. Os temas polticos esto entre seus preferidos, como visto em Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante. Publicado pela primeira vez em 1997, e com edio esgotada no Brasil h vrios anos, O Ventre da Baleia foge a essa regra  e comprova sua versatilidade como ficcionista.

O QUE O BRASIL QUER SER QUANDO CRESCER?, DE GUSTAVO IOSCHPE (OBJETIVA; 256 PGINAS; 36,90 REAIS)
 Diz o economista gacho  e colunista de VEJA  Gustavo Ioschpe no prefcio de seu livro: "A educao brasileira  um desastre". No se trata de opinio pessoal;  a sntese do panorama desolador que encontra quem se debrua sobre a situao das escolas do pas: no ensino fundamental, mais da metade no tem biblioteca; quase 800.000 alunos estudam em colgios sem energia eltrica; e cerca de meio milho em locais sem sanitrios. Seleo dos artigos que Ioschpe publica em VEJA desde 2006, o livro se pauta em casos concretos e dados estatsticos cuidadosamente apurados para proceder a uma anlise detalhada e a um criterioso desmanche de mitos  como o de que a soluo est em mais dinheiro. Em uma de suas argumentaes mais lcidas e impactantes, Ioschpe comea por lembrar que o Brasil gasta mais com o setor, proporcionalmente, do que o Japo ou a Irlanda, e muito perto daquilo que a Coreia do Sul investe. Mas est longssimo de se tornar referncia em sistema educacional, como esse trio. Corrigir essa distoro, defende ele,  empreitada que necessariamente envolve pais, alunos e professores.

DVD
ALMA EM SUPLCIO (MILDRED PIERCE, ESTADOS UNIDOS, 1945. CLASSICLINE)
 O escritor James M. Cain (1892-1977) foi muito popular nos Estados Unidos dos anos 30, serializando seus romances em revistas de grande circulao. Trs deles renderam emblemticos filmes noir na dcada seguinte: Pacto de Sangue (1944), O Destino Bate  Sua Porta (1946) e este febril melodrama estrelado com garra por Joan Crawford  que levou o Oscar. Ela  Mildred Pierce, mulher abandonada pelo marido que trabalha de sol a sol como garonete para sustentar duas filhas. A mais velha, Veda (Ann Blyth), logo se revela temperamental e ambiciosa, exigindo todo o conforto que o dinheiro pode comprar. Mildred lana-se ento nos negcios e acaba se tornando proprietria de uma lucrativa cadeia de restaurantes. No  o bastante para Veda, que, alm de chantagear um rapaz rico com uma falsa gravidez, se apressa em trair a prpria me. Como em todo noir, h paixes fumegantes, um assassinato e a surpresa final. Curiosidade: foi aqui que Gilberto Braga pescou a Maria de Ftima da antolgica Vale Tudo (1988). 


8#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- O Sangue do Olimpo. Rick Riordan. INTRNSECA
2- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito 
3- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA 
4- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO
5- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
6- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 
7- Quem  Voc Alasca? . John Green. WMF MARTINS FONTES 
8- Divergente. Veronica Roth. ROCCO
9- O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
10- Felicidade Roubada. Augusto Cury. SARAIVA 

NO FICO
1- Nada a Perder 3. Edir Macedo. PLANETA
2- Aparecida. Rodrigo Alvarez. GLOBO 
3- Guga  Um Brasileiro. Gustavo Kuerken. SEXTANTE 
4- Getlio 1945-1954. Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS 
5- Eu Sou Malala. Malala Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS 
6- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA 
7- Daniel  Minha Estrada. Daniel. BENVIR 
8- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
9- Mentes Consumistas. Ana Beatriz Barbosa Silva. PRINCIPIUM 
10- As Deliciosas Receitas do Tempero de Famlia. Rodrigo Hilbert. O GLOBO 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
2- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
3- De Volta ao Mosteiro. James Hunter. SEXTANTE
4- As Regras de Ouro dos Casais Saudveis. Augusto Cury. ACADEMIA DE INTELIGNCIA
5- Pais Inteligentes Formam Sucessores, No Herdeiros. Augusto Cury. SARAIVA 
6- Resolva!. Marcus Vinicius Freire. GENTE
7- Manual do Empreendedorismo. Bruno Caetano. GENTE
8- O Poder da Coragem. Jober Chaves. GENTE
9- Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE 
10- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL


8#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  VIDA QUE SEGUE

     Samos desta campanha com a sensao de que foi a mais sangrenta desde a redemocratizao. Nossa memria  curta. O colunista pede licena para citar a si mesmo, em artigos publicados ao fim das duas eleies presidenciais precedentes: 
     Lula x Alckmin, 2006  "J tivemos campanhas lamentveis. Quase todas so um atentado  inteligncia e ao bom gosto. Desta vez, porm, numa conjuno astral de rara infelicidade, tnhamos um candidato brio de soberba, prisioneiro do delrio de ter-se como o Predestinado, o Messias, contra o mestre-escola que aos domingos faz bico como sacristo. Ai!!! Dada a diferena nas preferncias em favor de um sobre o outro nas pesquisas, prenunciava-se uma campanha morna. Mas  curiosa campanha, esta  a certa altura o caldo desandou, e a intolerncia contaminou vastas fatias da populao, dividiu o eleitorado em linhas ntidas de classe social e escolaridade, rachou o pas em regies e estados de preferncias opostas." (Publicado em VEJA de 111/2006)  
     Dilma x Serra, 2010  "Desde 1989 no se assistia a uma campanha presidencial feroz como esta. (...) Os programas eleitorais e os debates caracterizaram-se pelas acusaes mortais, a raiva vibrando na voz e chispando nos olhos dos contendores. O pblico tem a poltica como seara por excelncia dos ladres. No  justo; h polticos srios e h outras atividades humanas em que a ladroagem campeia de forma to ou mais aguda. Mas quem mais contribui para que a marca da roubalheira se impregne na poltica so os prprios polticos. Nas campanhas, a regra  chamarem-se uns aos outros de bandidos. Como o pblico no haver de acreditar? Os debates da atual temporada, a tomar ao p da letra o que um disse do outro, foram duelos entre chefes de malfeitores." (VEJA de 3/11/2010) 
     O acirramento  prprio da instituio do segundo turno eleitoral, quando so s dois no ringue, como no boxe, ou os dois que sobraram, como na final dos campeonatos mata-mata. Mas, se esta campanha no foi to inovadora como parece em matria de tiroteio, tem a singulariz-la, em relao s duas precedentes, o fato de os candidatos chegarem  reta final to prximos um do outro nas pesquisas. Em 2006, a cinco dias da eleio, o Datafolha dava 61% dos votos para Lula contra 39% para Alckmin. Em 2010, faltando os mesmos cinco dias, Dilma tinha 56% contra 44% de Serra. Se voltarmos mais atrs e contemplarmos a eleio de 2002, tnhamos, de novo a cinco dias da eleio, 66% das preferncias para Lula e 34% para Serra. O que tais nmeros revelam  uma ntida progresso rumo  polarizao. Hoje temos o pas dividido como nunca desde 1989, quando o Datafolha, s vsperas da eleio, apontava 52% para Collor e 48% para Lula. 
     O primeiro desafio para o vencedor, seja quem for, ser lidar com o pas rachado ao meio. No que lhe incumba unir o pas. O sonho da ordem-unida  prprio das ditaduras. Democracia  desunio. O que lhe incumbe  inspirar a tolerncia entre contrrios e construir espaos de convergncia. Sobretudo, cabe-lhe no aprofundar a desunio at limites fatais, como na Venezuela. O perigo maior vem do PT. A quarta vitria seguida embute a ameaa de embriagar-lhe as alas bolivarianas a ponto de acharem que chegou a sua vez. Em caso de derrota, a tentao de sair s ruas e incendiar o pas com greves e manifestaes para inviabilizar o novo governo ser forte. No  difcil prever uma campanha "Fora Acio". A vocao centrista do PSDB, mais sua carncia de uma militncia comparvel  do adversrio, sugere cenrios menos dramticos. Mas tambm lhe ser imperioso governar com a conscincia de que metade do pas votou contra. 
     Segunda-feira  dia de enrolar as faixas, arrancar os adesivos dos carros e deixar de comer as unhas a cada rodada de pesquisa eleitoral. Dia de no se aborrecer mais com o horrio eleitoral  seja porque ele atrasa a hora da novela, seja pela intragvel presena do safado, mentiroso e mais desaforado dos seres que  o candidato adversrio. E dia at de comear a pensar em visitar aquele amigo que se evitou durante todas estas ltimas semanas porque sua orientao poltica era oposta. O veneno da campanha desceu dos candidatos at a alma do eleitorado. A hora  de calma  calma, minha gente, porque a vida segue e o Brasil continua. 


